Mídia: Ajudando a Desvendar Crimes. Só que Não
Caros leitores, sempre que ligamos a televisão somos atingidos por uma enxurrada de notícias sobre tragédias e, claro, crimes. A situação ainda se agrava pois portamos aparelhos muito práticos, muito simples de usar que nos dão qualquer informação em segundos: smartphones.
A mídia possui uma habilidade ímpar em conseguir reportar qualquer situação, tem sempre um repórter por perto ou então eles chegam rapidamente para cobrir os fatos. Contudo, por muitas vezes, vejo somente o interesse em descrever a situação e a falta de um esclarecimento mais aprofundado do ocorrido.
Por exemplo, ontem ocorreu um homicídio em Planaltina, cidade satélite aqui de Brasília. Cerca de 40 pessoas faziam uma espécie de manifestação contra o aumento da gasolina em um posto, abastecendo seus carros com 50 centavos e pagando com cartão ou notas de 50 reais. Houve confusão quando o frentista entendeu que um cliente queria abastecer 50 reais, a discussão se acalorou e o frentista disparou contra um adolescente de 15 anos que faleceu.
Percebi que o texto da reportagem estava muito mais preocupado com a morte do que com esclarecer como se deram os fatos, fica parecendo que o objetivo é chocar e não informar.
Por outro lado, existem aqueles que já solucionaram tudo o que aconteceu apenas observando uma cena de crime ou ouvindo alguma testemunha. Apontam culpados e inocentes e sequer chegam a comentar que os fatos ainda deverão ser investigados pela polícia, que para a condenação do acusado devem ser prestadas as providências e o andamento do devido processo legal.
Eu me divirto mesmo quando reclamam da lentidão do Judiciário no tocante aos recursos, por que deveria ter o direito de recorrer ao Tribunal aquele que nós já condenamos? Por óbvio que deveria acatar a sentença dada pela mídia e seguir para o presídio sem a chance de um julgamento justo para seu caso.
O julgamento de um processo criminal é um procedimento complexo, muitas regras devem ser observadas até que seja sentenciado o feito. É muito incorreto pensar que a Lei Penal somente beneficia ao réu, quem afirma tal situação carimba seu título de desconhecedor da legislação vigente. Temos sempre que ter em mente que todos estamos sujeitos a prática de um crime, não se iluda acreditando que só são julgados “bandidos de carreira”, o processo foi feito para que qualquer cidadão tenha o direito à ampla defesa.
Todos já ouvimos falar disso um monte de vezes, mas o que significa? Aquele que é acusado deve ter o mesmo direito de se defender como quem acusa tem o direito de acusar. O juiz deve conferir tanto para o Ministério Público quanto ao acusado as mesmas ‘armas’ processuais, a perícia, as testemunhas, o direito de peticionar e se manifestar... Tudo deve ser feito da mesma maneira pelas partes. Portanto, quando você ouvir por aí que é um absurdo a possibilidade de revisão de uma decisão pense duas vezes antes de acreditar.
Claro que a minha crítica não vale para toda a mídia, mas existe boa parte que só se importa em vender e para vender faz o que quer. Quem se prejudica com isso são os réus de processos ‘famosos’, que júri teria coragem de ouvir a argumentação da defesa no caso Nardoni por exemplo? Já foram condenados e cumpriam pena mesmo antes da denúncia ser oferecida. Mas isso é material para outro post. Cabe a cada um pensar sobre aquilo que lê e acredita para não sermos levamos pela maré de informações. Boa Semana!


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